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Sobre estar estrangeira para um novo ano

Era um dia bem quente quando a Nísia me chamou para tomar um café. Era dezembro no Rio de Janeiro e obviamente não tomamos um café e sim um suco de melancia. Segundos antes de encontrá-la, uma abelha tinha picado a minha boca. Eu nunca tinha sido picada por uma abelha — quase que gostei de saber como era. Era um sentimento estranho para mim. Estrangeiro. Mas me senti bem depois. Em parte porque aprendi a passar por aquilo, e em parte porque minha boca estava esteticamente mais próxima da boca da Angelina Jolie.

Arte: Markentista

Nos conhecemos num curso de escrita e eu lhe contei que aquele curso tinha sido um ponto de partida meu para muitos lugares. E sei que pra ela também. No dia desse mesmo café/suco, a Nísia me convidou pra escrever um texto pro Blog do Markentista e eu fiquei muito, muito feliz. E mais feliz ainda porque seria um texto inaugural do ano de 2017. Pensei sobre o que poderia falar e imediatamente me veio um tema na cabeça — quase como se ele tivesse me escolhido — sobre ser estrangeira. Pode ter sido o sentimento da abelha que me ajudou nisso. Eu estava atenta aos sinais, a gente tem que estar, certo?

Alguns dias antes do nosso encontro, ali pelo final de novembro, eu havia voltado de uma viagem intensa de 3 semanas e tinha escrito um texto sobre isso. A viagem me tirou do eixo. Fui estrangeira por 3 semanas. Lembro que quando voltei de viagem tive muita dificuldade de voltar à minha rotina, à minha vida. E acho que é um pouco disso que acontece quando a gente volta para um ano novo. Depois da semana de recesso, de descanso, vem um pouco daquela dificuldade de se encaixar de volta à rotina e também uma ansiedade em tentar administrar tantas novas ideias na cabeça.

No meio do meu sofrimento de readaptação recebi um conselho muito sábio de uma amiga sobre como tentar voltar ao meu estado normal. A Marie sugeriu que para que eu não sofresse tanto com a volta, que eu tentasse me fazer estrangeira em minha própria cidade. Foi ali que percebi que ser estrangeira poderia ser um estado. Um estar estrangeira.

O termo estrangeiro provém da palavra francesa étranger, cuja origem é étrange (estrange até o século XII), por sua vez do latim extranĕus (estranho, de fora). Para Matilde Campilho (ouso a dizer que seja minha poeta favorita), o estar estrangeira mudou a sua percepção de escrita. Foi enquanto estava estrangeira cá no Brasil que Matilde escreveu seu livro “Jóquei” (se você nunca leu, leia.) Para ela, quando somos estrangeiros estamos mais atentos, por um lado, às coisas pequenas e mais focados no que somos. Por um lado há mais espanto e novidade, mas por outro há mais silêncio por dentro, porque não temos os gestos e amigos habituais.

Arte: Markentista

Pensei sobre o que era ser estrangeira na nossa própria cidade. Essa coisa de perceber as miudezas da cidade. Fiz passeios que nunca tinha feito, ouvi a rádio local, pedi pratos que gringos pediriam, errei as ruas, e olhei pro rosto das pessoas como se elas fossem estrangeiras a mim. Comecei a observar o conhecido como desconhecido e nesse desconhecido pude me encontrar. Afinal, ser estrangeira tem isso de autoconhecimento.

Foi aí que decidi que nesses primeiros dias de 2017 eu estaria estrangeira. Estar estrangeira para o próprio ano, sabe? Para começar um ano novo esteja estrangeira sobre ele. Afinal, é verão. Aproveite para fazer o que nunca fez. Conheça Paquetá. Olhe com olhos curiosos, de primeira vez. O olhar de fora, esse mesmo. O de não pertencimento, esse que a gente só lembra de usar em viagens, mas ele está ali, o tempo inteiro. Use ele como novas lentes para o seu ano novo. Na sua primeira semana, no seu primeiro mês, ou no ano por inteiro. Mas lembre-se sempre que esse estado é possível. O estar, estrangeira. Essa mistura de espanto e silêncio. Afinal, o ano novo é aquela folha em branco. Um misto de frio na barriga, medo e vontade de escrever. Pode vir, 2017. Estamos prontos. Um feliz 2017 pra vocês.

Ps: para ler mais sobre ser estrangeira clique aqui.

Gabriela Gomes é designer, graduada em Desenho Industrial pela Unb (Universidade de Brasília) e pós-graduada em Estudos Brasileiros: Educação Sociedade e Cultura pela FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo). É também escritora e uma artista em formação. Depois de trabalhar anos no mercado editorial de São Paulo integrando as redações de revistas como ELLE e Harper’s Bazaar mudou-se para o Rio de Janeiro onde vive e trabalha no seu apartamento em Botafogo. Em 2016 integrou temporariamente a equipe de design da marca FARM para onde ainda colabora com textos sobre comportamento, arte e cultura. Após participar da Residência Artística São João — em parceria com a Escola de Artes Visuais do Parque Lage — em 2016, se dedica a estudos e pesquisas do mundo literário e em especial à poesia. Atualmente trabalha com design, produção de conteúdo para marcas e plataformas e escreve textos regularmente em seu medium. Este é o seu primeiro texto para o Markentista.

  1. Tayná Saes disse:
    16/01/2017 às 17:42

    Que time, hein! Que nosso 2017 seja uma eterna viagem de descobertas.

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